Resumo
- O otimismo com o corte de juros diminuiu devido a fatores globais (como a guerra no Irã, investimentos em IA e El Niño) e domésticos (expansão fiscal e proximidade das eleições).
- Apesar da volatilidade do período pré-eleitoral, o Ibovespa está bem abaixo do seu valor justo projetado (205 mil pontos), ou seja, o momento é bom para comprar ações.
- Na Renda Fixa está aberta a janela de oportunidade em títulos atrelados ao IPCA+ de no máximo seis anos e de setores previsíveis.
- Embora a saúde financeira das empresas esteja melhor do que na crise de 2023, a recomendação para o crédito privado (CRI, CRA, debêntures) é de cautela.
- No mercado de Fundos Listados, o cenário de juros altos favorece os fundos de recebíveis imobiliários (“fundos de papel“) por serem mais defensivos e menos sensíveis à volatilidade.
Resistiu por poucos meses o otimismo do mercado financeiro com a possibilidade de grandes cortes nas taxas de juros em 2026, tanto no Brasil quanto lá fora. Se no começo do ano os analistas projetavam a Selic a 12%, com inflação de 4,2% até dezembro, neste final de primeiro semestre a estimativa é outra: juros a 14%, pelo menos, e inflação de 5,5%. Os desdobramentos dessa mudança de expectativa estão detalhados no relatório Onde Investir em 2006 – 2o Semestre, divulgado na semana passada pela XP.
A guerra prolongada no Irã, que jogou a inflação para cima e trouxe muita volatilidade e incerteza, foi o principal motivo que obrigou os bancos centrais a adiarem os cortes nos juros. Mas não o único, segundo Caio Megale, Economista-chefe da XP. “Os altos investimentos em IA, no curto prazo, aumentam custos de produção. Além disso tem o El Niño e a expansão fiscal em países com demanda interna mais aquecida, caso de Brasil e Estados Unidos.”
Bolsa brasileira
Em solo doméstico, a “tempestade perfeita” tem um ingrediente extra: a aproximação das eleições presidenciais. Historicamente, o período pré-eleitoral traz mais dúvidas quanto aos rumos econômicos do país, e mais volatilidade especialmente para a renda variável e o câmbio. Para os analistas da XP, o pessimismo momentâneo representa um “indicador reverso”, ou seja, sinaliza um ótimo momento para entrar na Bolsa ou aumentar a exposição se houver espaço na carteira.
Com o Ibovespa bem abaixo do valor justo projetado para 2026 – 205 mil pontos – há oportunidades de ótimos retornos. “É um bom momento para compra, mas não é para negligenciar riscos”, pondera Raphael Figueredo, Estrategista de Ações da XP. “O escrutínio neste momento é muito maior. Em nossas carteiras temos empresas com boa qualidade, baixo risco, pouca ou quase nenhuma alavancagem e muita previsibilidade em seus resultados”, explica.
Renda Fixa
Diversificação e seletividade são palavras de ordem também para a Renda Fixa. Com os níveis dos gastos públicos recordes, inclusive nas economias mais desenvolvidas, e as circunstâncias geopolíticas instáveis, os juros de longo prazo seguem apontando para cima.
Isso não significa que o investidor da Renda Fixa deva ficar parado nos títulos atrelados ao CDI, que rendem próximos à taxa Selic. “CDI não é livre de risco e nem o cobertor quentinho que todo mundo acha que é”, alerta Rachel de Sá, Estrategista da XP. “Se pegar os últimos 20 anos, ele ficou atrás da inflação e do dólar. E você tem que pensar no seu portfólio de longo prazo corrigindo pela inflação”, ensina.
Com a curva de juros futuros acima de 14%, diversificar é a melhor tática, especialmente no crédito privado (CRI, CRA, debêntures etc). Segundo Mayara Rodrigues, analista de Renda Fixa da XP, há uma janela de oportunidade que o investidor pode aproveitar desde que tenha disciplina na alocação, diversifique com qualidade e dimensione o risco. “Recomendamos títulos IPCA+ de no máximo seis anos e de setores mais previsíveis, como utilidades públicas (energia, saneamento…)”, diz.
No crédito privado, cautela continua sendo a recomendação, ainda que o estresse atual seja diferente do observado, por exemplo, em 2023 durante a crise da Americanas e da Light. “As empresas tiveram muito acesso a crédito em 2024 e 2025, têm parcela menor de dívida no curto prazo e alavancagem em níveis saudáveis”, analisa Mayara, levando em conta a média das 70 empresas, de capital aberto e fechado, cobertas pelos analistas da XP. “(no crédito privado) A gente recomenda uma exposição máxima de 3% a 5% por emissor e, no portfólio, um total de até 20%”, orienta.
Fundos listados
A reversão do cenário nos juros foi sentida também nos Fundos Listados, classe que tem os Fundos Imobiliários (FIIs) como ativos principais e inclui ainda Fundos de Fundos (FoFs), Fiagros e Fundos de Infraestrutura (Fis-Infra). Com menor influência de fatores externos, o IFix, o indicador do desempenho médio das cotações dos fundos imobiliários na B3, chegou a valorizar 4,1% nos cinco primeiros meses do ano. Mesmo com a desvalorização no fim do semestre, os fundamentos setoriais continuam muito sólidos e sustentam retornos atrativos.
Para Marx Gonçalves, Head de Fundos Listados da XP, os fundos de recebíveis imobiliários, também conhecidos como fundos de papel, são os mais interessantes para se estar exposto no atual cenário, já que têm características mais defensivas. “Os fundos de papel alocam seu patrimônio majoritariamente em CRIs, que são títulos de Renda Fixa com lastro imobiliário, e estão menos sensíveis à volatilidade”, explica, frisando que a preferência deve ser por títulos com risco de crédito baixo ou moderado. “Eles têm devedores de maior qualidade e um pacote de garantias muito robusto, como alienação fiduciária de imóveis bem localizados.”
Já os fundos de fundos (FOFs) são os ativos mais voláteis da classe. Diante do cenário de alta inflacionária e de um ciclo de cortes de juros mais curto, a postura é, mais uma vez, de cautela e seletividade. A exemplo do que ocorreu no ano passado, os FoFs seguem descontados (14%) em relação ao valor patrimonial e com prêmio de risco acima da média histórica. Apesar do ambiente desafiador, ainda há oportunidades pontuais em fundos que mantêm níveis saudáveis de rendimentos e oferecem uma margem de segurança atrativa para o investidor.
O relatório Onde Investir em 2026 – 2o semestre traz as carteiras recomendadas para todas as classes de ativos e pode ser baixado na íntegra – e gratuitamente – aqui.